domingo, maio 27, 2007




Uma sala com velas, almofadas no chão, média luz... era uma vigília para crismandos e padrinhos. Ou pelo menos era só isso que eu pensava que era quando para lá ia.

Na introdução dá-se em mim um click quando ouço "a vígilia nesta noite é uma coisa de há muitos anos, esta vígilia era considerada a segunda mais importante do ano, depois da vigília Pascal, a vigília do Pentecostes".

Claro, faz todo o sentido. Afinal é o dia em que nasceu a Igreja, é o antecedente da nossa existência como comunidade actualmente.

E no entanto só ao fim de 23 anos é que "vigilei" este dia. Porquê? Porque o calendário da nossa vida não é o litúrgico, é o social talvez ou o cultural, mas o litúrgico não.

E o click foi esse, sentir de repente que alguma coisa me está a passar ao lado.

Que bom é viver a liturgia!

domingo, maio 21, 2006

Céu.. aos poucos



"Só hoje senti
Que o rumo a seguir
Levava pra longe"

Esta é uma letra para qualquer altura mas especialmente para este tempo pascal.
É este o sentimento marcante do momento. Depois do deserto algo surje, que faz sentir que há um longe para onde levar. Não é um distante vazio, mas um longe para ir.
A morte, que antes era o fim, agora é o princípio. As mortes, que antes eram o fim e a perda, agora são o início e o nascer de um novo modo, o mitigar de limitações e incapacidades.

"Não sei o que vem a seguir
Mas quero procurar"

E o sentimento é tão forte que, apesar das dúvidas e do medo, a confiança fica por cima. O exemplo da liberdade interior, exteriorizada na força e na coragem da entrega, provocam uma vontade de seguir e ir ao encontro que transcende os próprios limites.

"E hoje deixei
De tentar erguer
Os planos de sempre"

E para seguir muita coisa fica para trás, morre também. Porque esta morte quebra a monotonia do que sempre foi, acaba com o que já é.

"Pra outro amanhã
Que há-de ser diferente"

Para dar lugar ao que vair ser. Para que a estabilidade possa ser dinâmica e progressiva. É esta morte que vai fazer diferença, porque conduz a mais vida.

"E há qualquer coisa a nascer
Bem dentro no fundo de mim
E há uma força a vencer
Qualquer outro fim"

É hoje, é neste tempo da páscoa, é todos os dias. Não tenho dúvidas na Sua ressurreição, sinto-a dentro de mim. Sinto que não há qualquer fim se eu me deixar conduzir por esta força.



obrigado Jesus por dares vida à morte
obrigado Mafalda por deixares correr em ti a seiva do tronco que faz dar
frutos como esta música

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Peça a peça



Estranhos momentos do último mês em que tive "déjà-vus" da infância. Estava eu cuidadosamente a remexer caixotes com peças pequeninas de formas e cores distintas. Procurava, de cada vez, a peça exacta que me fazia falta, que encaixava no sitio que eu precisava. Sim, estava a montar legos, tal como há uns anos atrás tanto fazia.
Mas aquele ritual pareceu-me tão familiar que comecei a duvidar se seria só das brincadeiras de criança. Parei um pouco e pensei "Não será mesmo isto toda a nossa vida, como quem monta um lego?".
Vejamos, tudo começa com um projecto. Temos uma variedade enorme de peças à nossa disposição e resolvemos construir alguma coisa com elas. Podemos limitar-nos a seguir as instruções ou inventar algo por nós próprios. Se seguirmos as instruções acabamos por não fazer nada que não tenha já sido feito, se inventarmos uma coisa nova vamos ter muito mais trabalho porque não temos por onde nos guiar e também não temos muito bem noção de qual vai ser o resultado final. Mas é o compromisso entre o risco da originalidade e a monotonia do comum. De qualquer modo é sempre bom treinar com o que vem nos manuais de instruções, para nos habituarmos à utilidade das peças e aos encaixes possiveis (depois até podemos descobrir novas utilidades para as peças ou novas possibilidades de encaixes).
Uma vez definido o projecto chega a fase da montagem. Põe peça, tira peça, procura peça, as peças não encaixam como esperado, não temos no kit a peça de que precisávamos e temos de remediar com outra... mil percalços, e certamente temos de reformular o projecto muitas vezes, porque afinal não dava para montar como tinhamos pensado.
No fim de acabada a montagem, olhamos para o lego e começamos a pensar no que é que pode levar mais, aquela peça aqui ou aquela ali, ou então resolvemos desmontar quase tudo e voltar a montar alterando um pequeno pormenor ou trocando um monte de peças porque pode ficar mais bonito ou mais estável. Quando já está mesmo perfeito, se for um carro pode levar um atrelado, se for uma casa ainda merece um anexo...

E assim começamos com os Duplos, depois os Legos normais, segue-se os Technics e a seguir os Mindstorms, porque como disse um grande sábio "Há um vácuo de competência no mundo e, assim que as pessoas se tornam mais competentes, Deus ou a vida dar-lhes-ão coisas maiores para fazer".

E assim é a vida, de peça em peça a montar o projecto, de projecto em projecto até chegar à obra nunca-final.
E às vezes passamos mil vezes com os olhos por cima da peça que procuramos e não a vemos no meio da confusão das outras peças.. e os projectos que nos propõem que parecem impossiveis de montar...

terça-feira, novembro 29, 2005

D(e)u(s)bai



Aqui está um bonito espectáculo. Para quem não sabe é o Dubai, a estância turística mais luxuosa do momento. Logicamente o espectáculo é bonito mas não é natural, é o resultado de um megalómano projecto com fins exclusivamente turísticos.
Observado a grande distância é efectivamente bonito, mas se for pensada mais em pormenor talvez comece a perder beleza.
Talvez eu ainda veja, ou talvez já não, o dia em que vai acontecer uma enorme catástrofe natural que irá matar e desalojar e afundar a vida de milhões de pessoas que vivam nesta bonita obra. Nada obriga a que isso aconteça, mas nada me espanta se acontecer.
Nessa altura tenho a certeza que toda a gente se irá perguntar onde é que está Deus, e porque é que Ele faz estas coisas. O cenário é familiar. Mas por agora, enquanto se está a incomodar a natureza com toda a força que o dinheiro permite, ninguém se preocupa em saber o que Deus pensa do assunto.
É bem sabido que nas zonas onde mais pessoas foram afectadas pelo famoso tsunami existiam grandes dunas a separar o mar da terra e que as pessoas fizeram questão de destruir para poder construir casas em cima da praia.

Como alguém muito sábio disse: "Somos livres na escolha mas prisioneiros das consequências".
Se uma escolha que fazemos não tem nada a ver com Deus, se não é por Deus nem com Deus nem em Deus, não é coerente esperar que Deus tenha a ver com as consequências.

quinta-feira, novembro 03, 2005

Sentado



Apetece-me dizer que grande parte dos cristãos deviam pedir perdão a Deus (e a si próprios) por duas coisas. A primeira por se permitirem o mau sofrimento, aquele que não é causa/consequência de crescimento mas sim de limitação. A segunda por usarem palas que só lhes permitem ver as coisas pela física.
Isto a propósito de..

Não consigo compreender muito bem porque é que quando morre um rapaz, os pais e os familiares e amigos ficam extremamente desgostosos com a situação. Mas se, por exemplo, o rapaz entrar para os monges da cartuxa, dependendo um bocado das pessoas, ficam apenas entre ligeiramente insatisfeitos e profundamente satisfeitos.
Em qualquer um dos casos as pessoas em questão nunca mais poderão ver o rapaz senão nas imagens que possam recordar, nem nunca mais poderão falar com ele senão em oração. E no entanto as reacções são diferentes.
Qual seria a diferença efectiva para estas pessoas se o rapaz dissesse que tinha morrido e tivesse entrado para a cartuxa ou dissesse que tinha entrado para a cartuxa e tivesse morrido?
É o facto de saber que existe um pedaço de carne e osso, mesmo que não se veja ou se sinta, que faz as pessoas mais felizes? Ou será o facto de se saber que a entrada na cartuxa tem possibilidade de voltar a trás e a morte não, sendo assim a felicidade baseada no conforto de uma expectativa hipotética a vida inteira?

Bem me quer parecer que a fisica do corpo não é assim tão significativa como se faz crer. Tanto podemos sentir viva uma pessoa que não vemos nem tocamos com sentir morta uma que vemos e tocamos.
Então afinal de onde vem o sofrimento das pessoas? ou porque surge? e para quê?
E não estou a negar que é real ou involuntário. Mas quantas coisas involuntárias dependem da nossa visão distorcidade e equivocada da realidade...


(Quem quiser saber mais sobre os monges da cartuxa )

segunda-feira, outubro 31, 2005

Ping-Pong



A expressão mais usada para falar deste jogo é facilmente percebida quando se vê um bom jogo: a sonoridade que lhe está associada é um constante alternar do som feito pela bola ao bater na raquete de um e de outro lado da mesa.

Se por um lado é certo que na vida devemos estar permanentemente alerta para dar e receber quando a ocasião nos bate à porta, por outro lado a vida não tem que se assemelhar à linearidade e monotonia de um jogo de ping-pong.
Isto tem dois entendimentos: pode haver ping sem pong e pong sem ping.
Por um lado deveremos ter a convicção necessária para dar sempre sem considerarmos se o outro irá retribuir ou se está sequer preparado para receber. Por outro lado deveremos ter a humildade suficiente para conseguirmos receber mesmo sem sabermos se conseguiremos devolver, ou mesmo sabendo que não somos capazes de retribuir.

Parece-me que a vida é mais como o básico "jogar ao meio". Estamos todos à volta, tanto podemos passar a bola sem a receber como receber sem a passar. E há sempre um ao meio que tenta interceptar a bola, e assim se vai trocando de posições.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Liberdade condicional



Tentando não ser demasiado chocante, devo dizer que muitas vezes me dá vontade de tirar macacos do nariz em público (sim, leram bem). Não é para chocar as sensibilidades mais apuradas, mas na realidade penso convictamente o seguinte: haverá coisa mais nojenta do que fumar? é uma enorme jabardice que se faz ao meter os gases mais horrorosos até às profundezas mais interiores do nosso corpinho. No entanto fumar é uma actividade normalissima, desde o café mais rafeiro de aldeia até ao jantar mais chique, desde a pessoa mais desprezada até ao ministro ou cardeal mais famoso. E tirar macacos do nariz em público? acho que nem no café da aldeia, muito menos num jantar chique, nem o pior "pedreiro", quanto mais o cardeal ou o ministro. E que eu saiba até há uma grande preocupação com a qualidade do ar das nossas cidades.. mas isso é só mais uma das incoerências.
Este é apenas um exemplo demasiado nojento, mas há outros. Por exemplo, a dificuldade que duas pessoas de sexos diferentes têm em que os outros compreendam que eles podem ser apenas bons amigos e nada mais, ou a dificuldade que um grupo suficientemente unido de pessoas pode ter ao fazer um gesto simbólico de beijar as mãos uns dos outros num determinado momento especial levando-os a rir.
Enfim, são aos magotes os exemplos que se podem arranjar para mostrar como a sociedade tem sempre uma última, e determinante na maioria dos casos, palavra a dizer sobre aquilo que nós podemos ou não fazer, ou sobre a forma como podemos fazer.
Assim vivemos permanentemente sobre uma grande pressão desta coisa que é a sociedade. Alguns nem reparam que fazem tudo em função dela, outros apercebem-se disso mas não se importam, outros importam-se mas não fazem nada, outros bem tentam fazer mas não conseguem, e outros passam mil tormentas para agir como querem quando isso implica um colisão com esta grande massa.
E apesar disto tudo ainda há quem diga que somos livres! Realmente a liberdade está aí para quem quiser usá-la, mas poucos são os que se aventuram nisso porque, como já alguem muito sábio disse "Liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela." (George Bernard Shaw), o que quer dizer que cada um só é mesmo livre quando decide optar por esse caminho arriscado.

O dicionário dá como definição de liberdade: faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa.
Infelizmente acho que uma definição mais verdadeira para o uso actual do termo seria: faculdade de uma pessoa poder dispor de si, fazendo ou deixando de fazer por seu livre arbítrio qualquer coisa, desde que esteja dentro dos parâmetros admitidos pela sociedade. Ou qualquer coisa assim.

Para os que ainda não perceberam o que limita a sua liberdade, espero que venham a perceber. Para os que já perceberam, espero que tenham a coragem de ser livres. Para os que já o tentam ser, não percam a força. Usem a sociedade como uma boa base para serem livres mas não ab-usem dela permitindo que ela vos limite!